segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Por que as letra ‘j’ e ‘i’ são as únicas com um pingo sobre si?

 Por que as letra ‘j’ e ‘i’ são as únicas com um pingo sobre si?

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Tia Mirna, minha professora da primeira série do primário, contou uma história que me deixou impressionado. Disse à classe que, antigamente, havia a Escola do Alfabeto, onde estudavam todas as letras. Como as letras ‘i’ e ‘j’ fizeram muita bagunça, a diretora lhes colocou um sinal sobre a cabeça como forma de castigo. Então, i e jota nunca mais puderam tirar aquele ponto.

Depois dessa, quem iria bagunçar na turma da tia Mirna? Ela nos pôs um baita medo e não contou o verdadeiro motivo de essas duas letras serem as únicas do alfabeto latino que, obrigatoriamente, devem ser grafadas com um ponto na parte superior. Olôco... Tá, mas e de onde veio essa frescura de pôr o pinguinho?

Bem, tudo aconteceu na Europa Medieval. Com a escrita apenas manual, um estilo que estava em alta era a fonte gótica, baseada na alfabeto gótico, muito popular nos livros alemães. Essa tipografia era muito bonita e rebuscada, mas de leitura difícil. (Dê uma conferida no  ‘Google Imagens’.)

Um dos problemas do gótico é a semelhança entre dois ii e ‘u’. Por exemplo, imagine a palavra ‘aquarii’ (‘aquários’, em latim) sem os dois pings nos ii. Ela poderia facilmente ser confundida e lida como /aquaru/.

Para contornar esse probleminha, diversos símbolos foram propostos para diferenciá-los, como o til e o apóstrofo, mas o ponto foi o que se estabeleceu como padrão a partir do século XVI. (Aliás, o que há sobre o ‘i’, oficialmente, é um ponto; pingo é só no Brasil.)

Demorou algum tempo até que todos os copistas (os que transcreviam manualmente os livros) usassem o ponto sobre o ‘i’. Os mais tradicionais se negavam veementemente, mas, não tinha jeito, para tornar o manuscrito mais fácil de ler, era necessário “colocar os pingos nos ii”, ou seja, esclarecer o textos. Essa expressão é usada até hoje quando, enfim, se explica algo nebuloso.

Tá, e o jota?

O ‘i’, antigamente, funcionava como vogal e como consoante (semivogal). Por exemplo, justiça e Jesus eram grafados em latim clássico, na Antiguidade, ‘iustitia’ e ‘Iesus’, inciados por i. Só no século XVI é que essa ambiguidade foi resolvida tipograficamente. Para diferenciar as duas funções da letra, em 1524, o gramático italiano Gian Giorgio Trissino, um grande defensor da clareza na escrita, propôs que o ‘i’ consonantizado fosse escrito “com uma cauda”, ou seja, que fosse espichado para baixo. Nasceu aí o ‘j’.

O nome ‘jota’ vem da letra iota, do alfabeto grego. Perceba como o próprio nome da letra atendeu à regra proposta por Trissino. A semivogal ‘i’ de iota ganhou aquela esticada para baixo, ficando ‘jota’. A língua foi evoluindo e, no mesmo século, várias línguas já pronunciavam esse ‘j’ com o som que ele tem hoje.

Bem resumidamente, o i ganhou o ponto só para ii não serem confundidos com u e o j só era um i esticado. Mas, nããão.... Tia Mirna preferiu tocar o terror na nossa alfabetização.

📚 Referência: ‘Ɛpistola del Trissino de le lettere nuωvamente aggiunte ne la lingua italiana’ por Gian Giorgio Trissino’ (1524). 

📸 Figura: quadro ‘An Old Scholar’, de Salomon Koninck (1645).